domingo, 5 de maio de 2013

O Livro que Veio Cedo Demais


Desde o fim de 2012 tenho lido a série “A Torre Negra”, do escritor norte-americano Stephen King, o qual sou admirador há vários anos, quem sabe um dos primeiros autores que li, e hoje guardo na minha biblioteca particular vários de seus livros dentre eles os sete que compõem esta magnífica obra.
A coleção de sete livros quando acabaram de chegar
Estou apenas na metade do segundo volume, que leva o título de “A Escolha dos Três”, mas, estou muito surpreso. Conhecedor de boa parte da obra do autor, obviamente não esperava m trabalho fraco, além dos comentários sempre positivos que capto de quem já leu esse épico, mas, querendo ou não, sempre fico com um pé atrás em obras “fantásticas” do King, afinal, “O Talismã”, obra enfadonha deste autor em parceria com Peter Straub, foi a única das dezenas de obras que já li que não consegui finalizar. Realmente decepcionante.

Mas também acredito naquela ideia de que, não são os livros que são preparados para a gente, mas nós nos preparamos para ele. E adentrando a cada página a fundo da historia que envolve Roland e os demais personagens, percebo que, sim, “O Talismã” não deve ser ruim, eu que não estava preparado para ler algo fora dos padrões de terror detalhista do Mestre King.



Também me veio à memória Zaratustra, personagem real-fictício do filósofo Nietzsche que bradou, quando não compreendido pelo povo, que viera muito cedo. Há livros que nos veem ou será que nós vamos até eles?) muito antes do que estaríamos capazes de aceitá-los, de mastigá-los e digeri-los. 

Coloquei como meta: após finalizar este segundo volume e todos os outros cinco (até lá, provavelmente o 8º já tenha saído), entre a leitura de outras obras de volume único do autor, retornarei ao “O Talismã”, especialmente com vários anos a mais de maturidade e a certeza de que, hoje, não sou o menino pouco tolerante à liberdade criativa. E digo mais: podem esperar mais postagens sobre este autor maravilhoso. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

E Algum Dia Olharei Para Trás... Será Que Fui Alguém Sozinho?

"É curioso que a maior parte da nossa vida vivamos sozinhos"


E o que podemos fazer quando o coração aperta? Falei estes dias sobre a saudade e, a cada dia, tenho certeza de que esse é o “sentimento”, ou a “coisa”, que mais pode fazer sofrer e mais pode dar alegria. Afinal, a saudade está em tudo. Está na memória das coisas passadas, vividas. Está nas pessoas que jamais veremos novamente, está nos encontros e desencontros desta vida, até mesmo nas pessoas que podíamos nem gostar, outrora, mas que, de algum modo, deixam alguma saudade, quem sabe cúmplices dessa coisa que embaraça nossa visão, embarga nossa voz. Não gosto de cair muito em clichês, mas às vezes parece que certas coisas já foram definidas tão bem, que repeti-las não agregará nada de novo. Mas sei lá, me parece que as relações humanas são as coisas mais importantes que podemos ter. 

E eu bem sei que já estraguei relacionamentos, já afastei pessoas... algumas voltaram, outras me tem como uma das piores pessoas de suas vidas. É estranho pensar nisso, pois sempre nos parece que somos as melhores pessoas do mundo, não? Mas, simplesmente, uma palavra, frase, um comportamento, te transforma na pior coisa na vida de alguém. Fico triste em saber que, por aí, há quem não tenha me dado uma segunda chance, quem não soube me perdoar, assim como me alegro as pessoas que me perdoaram e hoje seguem ao meu lado. Meu muito obrigado a elas. 

Mas, e a saudade? Neste momento, nos primeiros momentos de um novo dia, me pego sozinho aqui em casa, pensando se é aqui que eu supostamente deveria estar. É curioso que a maior parte da nossa vida vivamos sozinhos. Sei que não estamos sempre sozinhos, temos nossa família, amigos, mas, quem nunca, apesar de tudo isso, se sentiu a pessoa mais solitária que já viveu? E não escrevo para gerar pena de quem ler, mas para, quem sabe, nesse ato de revelar coisas que não são novidades, pois todos vivemos isso, isso ajude a aquietar as emoções, e essa saudade, tema das minhas angústias, que me faz ficar acordado pensando, e pensando, e quase que querendo acreditar que há realmente algum destino, ou alguma “coisa” superior que possa me dar o que quero, quem eu quero.. mas daí percebo que não temos as pessoas, mas sim os momentos com elas. 

E me pego querendo certos momentos, mais e mais, numa eterna repetição, quase como o eterno retorno de Nietzsche. E se, algum dia, um filho, ou neto, uma simplesmente uma criança, me perguntar se a minha vida foi vivida como eu gostaria de vivê-la novamente, tenho receio de não ter uma resposta positiva. Será que o caminho traçado, eu aqui, agora, neste exato momento da madrugada, estou me preparando pra algo, para alguma certeza, ou será tudo acaso e, de uma hora pra outra, a pessoa, os momentos, que são os meus primeiros pensamentos do dia, meus sonhos noturnos, simplesmente poderão sumir, poderei perdê-la? 

Penso que chega um momento na vida em que não se pode pensar que teremos todo o tempo do mundo, que todas as opções estarão disponíveis, tal como estão agora. E se for tarde demais? A vida está mudando...

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A Injustiça da Canção...



Chega a ser injusto uma canção causar emoções tão únicas, que nos fazem lembrar alguém, associando a sua melodia com a emoção sentida com a pessoa, nos fazem sentir saudades ou tristezas, ou ainda alegrias, mas que, não importa o quão você queira, são suas emoções, apenas suas e a outra pessoa não pode, não porque não queira, simplesmente porque acaba incapaz, de sentir exatamente a mesma coisa, pois por mais que você sinta a conexão, nunca sabe ao certo, ou nunca pode ter a certeza, de que a conexão existe. A música vem lembrar isso, ou vem nos iludir disso, não sei. Só sei que a música tem essa capacidade, de apertar nosso peito, umedecer nossos olhos, esquentar nossa face, apenas no primeiro acorde, acorde aquele que não é apenas mais um, mas é a chave para um turbilhão de emoções, ou apenas para a saudade. Está aí a grande magia da música: ela é capaz de te levar ao paraíso ou ao inferno, não por ela, nem pela pessoa que você sente lhe causar isso, simplesmente porque você é você, e ninguém jamais conseguirá sentir teus sentimentos, viver tuas saudades, e as lembranças, ah, elas podem nem ser reais... eu gosto de acreditar que saudade é saudade em qualquer lugar, pra qualquer pessoa, mas será que é? Será que ela sente exatamente a mesma coisa quando ouve alguma música, assim como eu sinto quando ouço aquela aqui? Eu não sei, simplesmente não sei. Acho que aí está a graça: não pensarmos tanto, só sentir, mesmo que o sentido seja de saudade. E quem de nós não sente saudade agora, neste momento, de alguém? Eu sinto...


Escrito ao som de...

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

23 Anos e Um Desejo

Datas de aniversário tendem a nos trazer, pelo menos, duas emoções: alegria pelas felicitações dos amigos e pela festa (maior ou menor, não importa) que sempre acaba acompanhando esse dia, e saudade, nostalgia, certa tristeza.

Dizem que a saudade é um sentimento tão doloroso quanto um ataque cardíaco. Nosso coração, que nosso cérebro parece fazer sentir, aperta com a saudade. Saudade do que foi e daquilo que poderia ter sido.

Como ser humano que sou, me prendo muito nesses dois mundos: o do realizado e o do inexistente e acabado. Neste último, estou aprendendo a não pensar muito “e se...”. A Dúvida, meus amigos, pode ser tão cruel, pois não vem sozinha, mas caminha com a Culpa. O que não foi, nunca será. E acho que nunca na vida terei tanta certeza assim...

Mas o que dói e é uma dor prazerosa, é aquilo que foi. Ah, as coisas boas da vida! Cada um de nós tem as suas e eu aqui enquanto escrevo lembro de várias que só a mim terão sentido, por isso calo.

Momentos com as pessoas certas, na hora certa. Sabe quando duas pessoas se conectam realmente? Pois é esse tipo de conexão que fazem a vida ser o que é, esse caos ao vento que ora te joga para baixo, ora te lança aos céus.

Que fosse me dado um desejo a ser realizado no dia de meu aniversário, não pensaria duas vezes. Sei bem o que pediria. Pediria uma pessoa cuja companhia justifica o inexplicável de se estar vivo, cujo olhares substituem as palavras e cada um sabe exatamente o que o outro quer. Amor? Não, não quero mais esse amor envenenado das redes sociais, ou aquele amor cuja palavra “A.M.O.R.” está tão intoxicada, que dizê-la mata o verde e natural ao redor.

Não! Pediria essa conexão que tem vencido os anos e a distância. Se consigo conectar-me assim com outras pessoas? É possível. Mas e será que as outras pessoas se conectariam da mesma forma? Os últimos tempos tem mostrado que não.

Conheci pessoas que se acovardam da vida, que deixam-se guiar por coisas outras que a simples ação de ser e de viver o que pode viver com outra pessoa.

Pessoas com medo de envelhecer (como se isso fosse doença), com medo de dizer “você é meu, eu sou sua” (como se isso fosse posse). E o que nesse mundo realmente tomamos posse? Pense e verá que não temos nada a não ser o que conseguimos com as pessoas ideais.

Perfeição? Perfeição é uma distorção, esquizofrenia. O que todos queremos é conexão. Eu tive a minha e se há algum tipo de justiça no meio de todo esse caos, que eu a tenha de novo, e novamente, e assim até o fim dos meus dias. Isso sim faria todo o resto ser brincadeira de criança...e voltaria a ter a alegria de uma.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Delirante reencontro



E quando as escolhas que tomamos e as mudanças que na vida
nos afetam, o que fica pode ser apenas a saudade, a incerteza de um reencontro,
o desejo da eternização de certos momentos...

A vontade grandiosa de posse, não de sufocar, mas de não deixar
ir novamente o que nunca lhe pertenceu; o querer acreditar novamente, a
enganosa sensação de que reparar algo quebrado, pelo menos naqueles instantes de
reencontro, tudo isso parece possível e desejado.

Mas o que fica, o que nos resta, para além das lembranças
que, ano a ano, se desvanecem e misturam-se aos devaneios? E o que carregarei
para o resto da vida, escorrega por entre os dedos, por mais apertado que o
punho se feche sobre si, até restar o delírio da certeza de que o vivido, já
morreu, que as relembranças pouco jus fazem àqueles momentos, insultando-os com
os devaneios de um louco; não louco da razão, mas louco da emoção que, de tanto
amar uma vez, jamais consegue amar daquela forma, novamente.

O que resta, no máximo, são tentativas frustradas, forjadas,
de alcançar aquela felicidade cujo espectro perde seu contorno e já não sabemos
mais, se vivemos ou se fantasiamos.

E pensar que das lembranças restam cinzas e apenas uma
melodia ao vento, tão pouco, nos parece, daquilo que queremos...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O Suicídio Multifatorial




Filhos da lógica de causa e efeito, nos acostumamos a pensar todo e qualquer fenômeno como decorrente de uma causa, uma origem que levou as circunstâncias até o derradeiro acontecimento.

Em relação ao suicídio, não ficamos livres dessa lógica. Temática polêmica, quando se fala em pessoas que se matam, um frio percorre nossas espinhas e, não raro, temos reação de pedir para mudar de assunto, “deixe de falar bobagem”, e quem sabe três batidas na mesa.

O que se tornou um tabu, hoje inegável e a cada ano mais respeitado e debatido, é a morte. Pensar na morte, que de cara é um dos primeiros e singulares pensamentos humano, tornou-se algo do nível macabro, mórbido, longe de fazer qualquer sentido.

Schopenhauer, bastante tardio se pensarmos a história da Filosofia, afirma logo de inicio em seu livro “As dores do mundo” que a morte é a musa da filosofia e sem ela não se teria começado a filosofar. Aristóteles disse algo assim, milhares de anos antes, quando anuncia que a Filosofia da morte é a Filosofia da vida. Talvez mais que qualquer dos dois, Epicuro e Sêneca colocaram suas mentes a pensar a morte, o segundo inclusive tendo cometido suicídio.

Tirar a própria vida. Algo que inimaginável em vermos noutros seres vivos, talvez sejam uma das poucas coisas que nos fazem seres humanos, já que os animais, dentro de seu limite, também amam, odeiam, ficam tristes e alegres, enfim, demonstram emoções (Darwin que o diga, vide seu livro “As Emoções em Homens e Animais”).

Vindo do latim, a palavra suicídio remonta aos termos “sui” (si mesmo) e “caederes” (ação de matar), sendo de consenso que Desfontaines em 1737 fora o primeiro a cunhar o tema, e talvez não haja outra palavra que mais mobilize as pessoas.

Nossa relação com a morte atualmente é tão estranha em relação à outros períodos da Humanidade, que fica difícil falar em suicídio abertamente, como algo possível da vida humana e, até onde se acredita, presente apenas no Homem.

Se o século XIX teve como principal tabu a sexualidade (e como movimento de resistência nasceu a Psicanálise, disciplina que fora importantíssima para chegarmos ao ponto da sexualidade contemporânea), o século XX, especialmente a partir dos grandes avanços tecnológicos na área da saúde, elegeu a morte como tabu.

Philippe Àries fora um dos grandes responsáveis em provar que nem sempre a morte fora medonha e escondida como hoje, num período em que a morte é invertida e selvagem, mas que em cada uma das principais culturas e períodos, o homem tivera uma relação distinta e única.

Hoje se morre nos hospitais, quando não se morre antes de chegar a ele em acidentes ou decorrente de violências nas ruas. Morre-se sozinho. Obviamente, a morte é algo que não permite ensaio, e vista como um processo, ela começa a “acontecer” desde que nascemos, como bem apontou Heiddeger.

Nascer e morrer não permite ensaios. Que os Espíritas me desculpem, não estou afirmando ou negando sua doutrina, mas a verdade é que, nessa vida que vivemos e na qual temos consciência, é uma e não nos deixam nascer mais de uma vez, e morrer se torna um ato único.

Talvez seja isso que o suicídio represente. O ato máximo do fim da vida, daquela vida individual. Quem sabe, para o suicida, sua vida tenha transcorrido outro caminho não desejado (inesperado), que a morte, o ato de se enforcar ou se dar um tiro (acredito que o método usado fala um pouco da pessoa), seja de ensaio, como se dissesse: “Eis me aqui. Nasci, sem decidir se sim ou não gostaria de vir ao mundo. Cheguei e fiz dele meu ensaio. Vejo que estou na peça errada, meu figurino não combina, me resta sair de cena e voltar para o final da fila”.

Obviamente que as cartas foram dadas e a morte não tem como lhe devolver seus Àses.

Texto: Eduardo Cadore (Direitos reservados)

Pintura: Paula Rego

domingo, 18 de abril de 2010

Ensaio: Além do Bem e do Mal: Circulando ideias em volta de “Crime e Castigo” de Dostoiévski

Foi-me oferecido a oportunidade de ler um dos maiores clássicos da literatura russa e mundial, saída da mente admirável e febril de Fiodor Dostoiévski. Falo de “Crime e Castigo”, em 1866, que mesmo escrito há mais de 150 anos e numa outra cultura, nos mobiliza e faz pensar sobre a sociedade, o Homem e o Estado.

Como forma de constextualizar, apresento (com a permissão suposta do autor) a personagem Raskólnikov, jovem rapaz de 23 anos, ex-estudante de Direito (deixa a universidade por não poder pagá-la), sobrevivendo com os poucos trocados que lhe restam num cubículo da periferia de São Petersburgo.

Ambientado em condições de miséria e total descasso (seja em termos de saúde pública, seja culturalmente), sobrevivendo dia após dia, prevendo apenas a piora de sua situação social.

Sentia-se injustiçado por ser muito inteligente e viver como um rato ou qualquer vagabundo. Vestia-se de tal forma que, ao sair às ruas, sentia-se dessa forma, com os transeuntes repugnando-se ao vê-lo passar.

Na sua família, possuia apenas mãe e irmã, que moravam longe de sua cidade e que o amavam e lhe tinham em alta consideração.

Recebe uma carta de sua mãe, que costumava lhe ajudar com alguns rublos (moeda russa), mas que estava em tão grande dificuldade que até a irmã de Raskólhnikov, dúnia, estava “se dando” à um casamento para sobreviver.

Isso enraivece a personagem central da obra que, diante de todas essas circunstâncias passa a pensar em roubar o que pudesse de uma velha com quem penhorara objetos de grande valor para ele mas que recebera ninharia em troca.

Ninguém gostava dessa mulher, nem mesmo sua irmã que, dependente dela para comer, era maltratada e humilhada pela mesma.

Com astúcia mental, o jovem decide que, além de roubá-la, vai matá-la por se tratar de um verme que não fará falta ao mundo, pelo contrário, sua morte traria sossego à irmã e seu dinheiro permitirá à Raskólhnikov voltar à estudar e ajudar sua família, salvando-a da inanição e vergonha.

Sua perspectiva não lhe permitia ver isso como um crime e o que apenas o fez hesitar até certo momento foi o temor de ser preso. Porém, conclui que não cometerá erros e não irá preso, pois “nem a sua razão nem a sua vontade o abandonariam durante toda a execução do seu plano, unicamente pela razão de que aquilo que se propunha a fazer não era um crime” (p. 85).

Sem culpa, assassina a mulher como planejou (utilizando de uma machadinha sem ser visto por ninguém) mas acaba tendo de matar a irmã da mesma pois ela chegou logo após o ato consumado.

Desespera-se. Comete dois assassinatos e a situação foge de seu controle, justo ao dele que sentia-se seguro e dono de suas faculdades mentais.

Toma a primeira morte como o caminho para ajudar muitas pessoas e a segunda como uma fatalidade, um triste acidente, mas que não o abala tanto. Traz junto de si toda a frieza da razão.

Sabemos que o crime fala de uma investida, um ataque contra a vida. Para ele, parecia mais uma contravenção, algo contra as normas sociais.

Embora haja outras personagens interessantes, limitarei à de Raskólhnikov para pensar e refletir sobre a sua ideia de homem e crime.

A personagem (que na obra é autor de um artigo sobre o que relatarei a seguir) divide os homens da nossa sociedade em dois tipos distintos: os vulgares e os extraordinários.

O vulgares seriam aqueles presos à matéria, ao concreto, isto é, Às leis e moral vigente, ao que é tradicional e velho, negando a inovação.

Por outrom lado, os extraordinários se aporiam a estes na medida que seriam aqueles cujo o novo, o iminente, lhes agrada e de fato são os que produzem revoluções sociais, levando o bem à humanidade.

Eles englobariam os grandes nomes como Napoleão, que matava os que iam contra essa lógica, trazendo benefícios à humanidade que justificariam a morte de outros. Trata-se de uma ideia de sacrifício, de mártir.

O título deste escrito remete à essa ideia da personagem de que é possível um ser humano além do bem e do mal, com uma ética e moral a parte da corrente, homogenea. Segundo Raskólnikov, os motivos que levariam uma pessoa do tipo extraordinário a até mesmo matar (como ele mesmo fizera) outro ser humano seriam “altruístas”, em outras palavras, cometeriam um ato condenável pelo estado em prol de um bem maior, para mais pessoas, para a humanidade.

Seria esse o protótipo de um além-homem, proposto sistematicamente (e até quase fanaticamente) por Nietzsche em suas obras? Me peguei nessa indagação ao conversar com um amigo que aprecia o filósofo e dostoiévski.

Nietzsche propõe um novo ser humano (erroneamente traduzido literalmente como Super-Homem) que não seria mediado pela moral entre suas aspirações (“Torna-te quem tu és” diz o filósofo), desejos, ânsias e o que é necessário para satisfazê-los.

Para isso, continua Nietzsche, a espécie humana deveria matar seus ídolos, especialmente os religiosos, para com isso poderem transvalorar todos os valores daí oriundos, isto é, destruir os antigoss (que se atualizam no presente) que são os valores limitadores metafísicos e construir novos a parir dos espíritos-livres, pessoas que se aproximariam dos extraordinários proposto pelo autor russo atrvés de Raskólhnikov.

Seria possível continuar nessa associação, porém, cabe aqui pensarmos, até onde nos é possível, como seria essa sociedade em que o homem do tipo vulgar (preso à moral) deixaria de ser a aioria dominante para tornar-se dominado pelos extraordinários. Raskólhnikov salienta que não é possível existir apenas um de um tipo desses homens, bem como só é possível o surgimento de um ser extraordinário entre milhares.

Parece-noss que essa “sociedade de extraordinários” seria diferente das demais pela falta de sentimento/pensamento da culpa, afinal, se o que importa são os objetivos em prol de uma suposta maioria em detrimento de uma minoria, não se comete crime, ou maldade pura e simplesmente.

A maldade não seria, pois, os motivos de um ato como o assassinato não seria totalmente egoísta mas um tipo de “sacrifício” justificado e legitimado pela consciência do assassino “voltamos a isto depois). Muito menos seria considerado crime, pela mesma justificativa anterior.

O que verdadeiramente importa, nessa lógica, é a consciência do ator social, do cidadão. Raskólhnikov aponta que mesmo que o Estado não aceitasse tal homem extraordinário, este deveria apenas “ouvirs sua consciência”, a razão e a lógica científica. A culpa ficaria para os vulgares, pois estes sim deixaram-se internalizar as noções e bem e mal, certo e errado, dessa forma tendo-os como noções tão naturais que perderam o caráter conceitual, para tornarem-se parte desses seres e tornarem-se indiscutíveis.

Raskólhnikov não sente culpa em momento algum da obra. Teme, é evrdade, ser descoberto e privado de sua liberdade.

Porém, se a razão não lhe abandona e se faz presente para justificar o duplo homicídio, é o “coração”, o emocional que lhe trai.

Desde o assassinato passa a sentir-se mal fisicamente (febres, desmaios, fadiga), com certeza sintomas relacionados a uma não aceitação inconsciente do ato. Poderíamos pensar que mesmo que seu discurso (consciência) perda para a não sentir culpa, seu copro e mente delirante manifesta o forte choque insconsciente com seu superego rigoroso.

Mas deixando de lado essa visão psicanalítica, seria possível um mundo raskolhnikoviano? Poderíamos nos organizar de um modo mais satsifatório à todos se legitimássemos atos atualmente criminosos como, no máximo, contravenção?

Acredito que não, afinal, a noção de Justiça de justiça humana parte da ideia de que a vida esta acima de tudo e de todos. Se quizéssemos uma “sociedade extraordinária”, teríamos que desenvolver e aceitar uma noção outra de vida o que, ao meu ver, é impossível tão logo, por ser complexa demais (talvez até mais do que a noção de morte).

Raskólhnikov alega que as grandes conquistas da humanidade foram possíveis pelo derramamento de sangue dos opositores e dos que lutavam à favor. Nota-se que aidna há numa parcela de pessoas essa certeza de que o sofrimeto leva à redenção, ao progresso. Dizem: “A medicina avançou muito após a Segunda Guerra Mundial”, como se tal avanço científico justificassse uma ideologia nazista que testava suas hipóteses em seres vivos judeus, ciganos, negros, portaddores de sofrimento psiquico, etc., como no Holocausto.

Não podemos assegurar que, caso tivéssemos parado de guerrear na Primeira, não teríamos uma medicina, por exemplo, como a contemporânea.

Da mesma forma, como dizer que a humanidade se elevaria se todo massacre de alguns beneficiasse aos demais? Sendo que, o que acontece, é o massacre de muitos em beneficio de alguns.

Trata-se de uma visão simplista do que é considerado bem comum e bem privado, pois aqui não há perspectiva, isto é, um olhar para os dois lados da moeda, e sim a ideia de que há um lado correto e outro errado, aliás, o que sempre o ser humano faz.

Fica a questão: correto para quem? Errado para quem?
A obra de Dostoviéski “Crime e Castigo” traz essas indagações que ao longo deste pequeno escrito tentei desenvolver. Junatr em 600 páginas a história de várias vidas, de uma sociedade para poucos e marginalizante para muitos, de um crime de “consciência limpa” e um castigo pior que a privação de liberdade (para Raskólhnikov): a destruíção de uma ideia equivocada (o assassinato justificado) e o sofrimento às pessoas que o amavam.

Referência Bibliográfica para este ensaio

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e Castigo. Porto Alegre: L&PM, 2008.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Sobre Um Crime Contra a Humanidade

A internet é algo que sempre dá o que falar, afinal, com a possibilidade de qualquer pessoa que tenha acesso à ela veicular videos caseiros, amadores, e se tornar uma febre (seja a nível da comunidade, regional ou até mesmo mundial).

Volta e meia cai nas graças do povo algum video que me faz pensar sobre o quanto somos coniventes com certas coisas que, no discurso, somos contra. Talvez posso falar de o quanto somos hipócritas.

Há um video de uma moça no qual, num bar de uma cidade, beija um ser humano (como ela, embora poucos pensem assim), considerado mendigo e que é usuário do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) dessa cidade.

Não vi o vídeo, nem estou aqui para dizer o que eu acho dele. Não pretendo ver, porque o que me acomete é de tentar não ser conivente com isso, embora todo um movimento social (inclusive entre Universitários da Saúde Mental) tente me “empurrar” para isso.

Me irrita que, até mesmo em algo agressivo como o história do video, no qual um ser humano (sobre efeito de drogas, sejam licitas ou não), “estimulado” por outros que gravaram o vídeo, ABUSA (não tenho medo de usar essa palavra) da dignidade de outro. E é justamente esse outro que ninguém parece se importar.

Alguém me disse: “Ah!Mas ele estava gostando da situação”, afinal, poderia ter complementado, “ainda saiu no lucro por ter beijado alguém”. Ouvi isso da boca de alguém que foi o porta-voz do que o povo pode estar pensando.

Chamo de abuso por considerar um crime contra a humanidade através desse sujeito, que se asujeitou às condições desses outros seres humanos diretamente envolvidos e que “pouco importa”.

Causa “terror” o fato da menina ter sido quase “obrigada” (os “amigos” ficavam manifestando palavras de apoio e desafio) a “agarrar” e beijar alguém que, para a nossa sociedade, não passa de um lixo social, não possui dignidade e nem pode sofrer com o que aconteceu. Sempre vemos só o que queremos ver.

E eu pergunto, inclusive às pessoas que tratam e/ou irão tratar seres humanos em condições semelhantes a desse homem-nada (nada de sexualidade, pode ser violado discaradamente em seu corpo, afinal, não é nada): vocês se dão conta de que estão alimentando a desigualdade, a falta de respeito pelo ser humano e por si próprios, cometendo um crime contra os portadores de sofrimento psíquico (e todos os ideais de justiça e harmonia que foram elencados à base de muito sangue), contra os “indigentes”, enfim, contra os “tipos” de pessoas que esse sujeito representa para a sociedade?

É irritante como estamos imersos em informações, mas não somos capazes de criticar fundamentalmente as mesmas, de olhar para os nossos atos, pensamentos, e perceber que estamos patinando na ignorância!

Também me deixa cansado. Voltei para casa com a sensação de estar sozinho. Sei que não. Que resta pessoas que sabem o que é serem respeitados e por isso também respeitam aos outros.

Mas me desanima a percepção de que, como na areia movediça, quanto mais nos movemos para buscar um mundo melhor para todos (se é que é possível agradar à todas as singularidades), mais parecemos afundar para dentro de um processo de retrocesso à um tempo em que a vida (nossa e dos outros) de nada valiam.

Pintura: Portinari, com o título "Criança Morta"

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O mundo sem nós....

"A morte pertence à vida, como pertence o nascimento.
O caminho tanto está em levantar o pé como em pousá-lo no chão" Tagaro

Esse é um trecho que inicia um dos capítulos de "Sobre a Morte e o Morrer" de Kubler-Ross.
Lendo o livro pela primeira vez, me passou desapercebido. Agora parece a passagem citada mais significativa. Vou dizer por quê.

Porque sabemos que nascemos, sabemos que morreremos. Nada disso é novidade. Mas passa a ser estranho, bizarro até, quando pensamos que tanto o nascimento como a nossa morte (isso mesmo, a minha, a sua, e de todo o ser vivo deste planeta) andam lado à lado, numa constante fusão.

A biologia humana prova isso, na medida que as céllas "se destróem" para produzir uma parte do corpo, lá no útero, ou quando a "trocamos" por novas células todos os dias.

Nossa mente não aceita a certeza de que deixaremos de existir.

Viorst em "Perdas Necessárias" conta que, quando criança, costumava pensar em como o mundo continuaria sem ela. Não apenas para a criança pequena pode parecer impossível isso, mas para nós mesmos, adolescentes, adultos, idosos, de qualquer etnia da nossa sociedade ocidental (e boa parte da oriental também).

Não concebemos a nossa morte, o fim da nossa existência, tampouco de que podemos, a qualquer momento, deixar este mundo e que ele (pasmem!) irá continuar sem nós, de uma forma ou de outra. Até mesmo aqueles que amamos e que julgamos nos terem como centro de suas vidas, seguirão, na maioria dos casos, em frente.

"A vida continua", dizemos. A morte também...

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Da Brutalidade Humana

Muito se questiona sobre o “mundo”, de que ele está “perdido”, de que a maldade “tem tomado conta”, quando acontece algum assassinato, especialmente aqueles mais violentos.

Pergunta-se sobre o valor da vida e indigna-se com a impunidade e problemas do mundo.

A “natureza” humana é questionada: somos bons ou maus? Paulo Coelho, no seu “O demônio e a Senhorita Prym” faz essa mesma pergunta. No enredo, que se passa num vilarejo pobre e isolado, um homem, desolado com o assassinato de sua família, resolve “testar” a natureza humana.

Ele afirma à pequena população de que enterrou nos arredores 10 barras de ouro e que, eles têm de decidir, num determinado período de tempo, sacrificar alguém da aldeia, em troca da informação da localização das tais barras.

Fica então, aqui, a questão de se o “bem comum” de todos é justificativa pela literal morte de alguém. Começam a postular a ideia de “sacrificar” uma velha senhora, estereotipada como a “louca” da comunidade.

O ato violento, sem fins de alimentação e sobrevivência é humano. Se falamos que um assassinato é desumano (a-humano, ou seja, não-humano), estamos caindo num grande equívoco. Ele é, fundamentalmente, um ato humano. Vide as guerras em busca de dominação e aumento de poder.

Não creio que haja um natureza humana, por si só, algo inato. Até mesmo nossos “instintos”, se acreditarmos nas descobertas da ciência, são reflexos de nossos antepassados, de experiências que nos constituiram.

A sociedade é uma prova cabal disso. Muitas foram as sociedades tão distintas da nossa que, cedo ou tarde, sucumbiram exterminando-se justamente em guerras, apoiadas em ideologias de poucos que acabam se tornando a de muitos.


Se um homem assassina outro, viola seu corpo e o direito à vida tão somente está fortalecendo essa capacidade de acabar com a existência de sua própria espécie (e a sua própria, individualmente), para alcançar objetivos que partem, sempre, de motivações egoístas.

Aqui a seleção natural proposta por Charles Darwin há um bom tempo, não se aplica, ou, se olharmos de outro ângulo, aplica-se porém de forma perversa. Isso porque muitas foram as ideologias que acreditaram que a guerra e/ou extermínio dos fracos só fariam surgir “bons humanos”, seres evoluídos. Tal foi a concepção de Hitler e de toda uma parte do globo.

Entretanto, com a guerra estamos exterminando aqueles que somos nós mesmos, em busca de algo que não sabemos existir. Somos frutos da evolução, mas matar a nós mesmos na ânsia por algo diferente do que somos não me parece nada mais que uma estupidez, afinal, não são os genes que nos fizeram o que somos, mas sim toda uma organização da humanidade.

Chama a brutalidade de algo humano e, antes de mais nada, uma observação e alerta. Não se trata de julgamento ou de justificar tais atos.

Saber do que somente nós somos capazes nos permite, em tese, prepararmos e proteger-nos de nós mesmos.

As gerações que estão e estarão aqui neste novo milênio têm a responsabilidade pelo destino de nossa espécie e das demais. Cabe a nós aceitarmo essa responsabilidade e fazermos dos homens do século XXI menos extintores de vida e maiores potencializadores dela, na medida em que já é passada a hora de melhorar, ascender à um novo nível existencial.

Com isso, não acredito que a violência e a brutalidade deixarão de existir, afinal, é uma manifestação humana (desagradável para a vítima, com certeza), mas acredito naquilo que Nietzsche dizia sobre a transvalorização de valores, ou seja, destruir velhas e construir novas formas de vida, de valores que possibilitem o ser humano se superar, tornar-se o além-homem, além-animal.

Até que os povos do mundo busquem isso, temos que ir lidando com nós mesmos, nossa agressividade e brutalidade, que é sua forma mais extrema e cruel, pois condena famílias inteiras à desgraça, que pode, afinal, também resignificar melhor o sentido de família, já que a morte e a violência tem a capacidade de construir, não apenas destruir.

Pintura de Nelson Magalhães Filho

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A Morte no espelho

Imaginem a cena em que, a cada manhã, um homem acorda da sua noite de sono, posta-se diante de um espelho e percebe que o que esta vendo refletido é, antes e acima de tudo, um si-mesmo para a morte. A morte disfarçada naquele rosto de carne, osso, sangue, talvez não tão mais familiar.

Talvez esse homem tenha percebido que a morte está em todo lugar, para todos, que a foice corta o ar e ceifa a vida. Que pense que ela nucna chegará antes da hora certa, de que há muitos anos a serem vividos (sobrevividos?!) e experiências para serem experienciadas. Ou, ainda, veja um rosto/corpo que envelhece, perde encantos e adquire outros (que aos superficiais olhos não existem).

Quem sabe, se tiver sorte, vai ver a própria morte abraçada com a vida, dançando em cada célula de seu corpo e, conclua (e sinta) que ambas são uma só e que, afinal, é ele mesmo.

A morte então não seria algo em si mesmo, vinda de fora da nossa existência e causadora do efeito de inércia, de paralisia do corpo. A morte está nele, é ele próprio.

Lembro aqui de Heiddeger que diz que assim que nascemos, estamos prontos ou aptos à morrer. O homem que se postou ao espelho também, esse homem que somos nós.

Esperamos a morte vir, mas ela já está aqui desde sempre, ela veio com a vida, sua amante na eternidade.

Pintura "Morte e Vida" de Gustav Klimt, D.R.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Sobre a Morte e o Morrer

Pequeno texto do excelente Rubem Alves. Vale a pena conferir.


O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?



Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12-10-03. fls 3.

O Que Criamos Com a Ciência

Hoje, embora começa-se a discutir sua validade criticamente, as pessoas com pouco acesso à ela ainda esperam que nos dê curas milagrosas, a panacéia (remédio para todos os males da vida), bem como os “fanáticos” (cientistas céticos e que resumem sua vida nesse fazer) que agora não são religiosos, mas “científicos”
Se Nietzsche pudesse ressurgir hoje, poderia comprovar sua idéia da morte de Deus, e ver que a Ciência nos trouxe para um mundo de dependência dela, pois as tecnologias que ela desenvolve acabam por nos tornar como crianças sem a mãe por perto quando não temos acesso a elas, ou quando esse acesso nos é tomado. Pensamos que existe um Deus, talvez um pouco diferente daquele da época de Nietzsche, mas isso não nos liberta dessa dependência, embora possa “afrouxar” em algumas pessoas a crença cega na Ciência.



Hoje, embora começa-se a discutir sua validade criticamente, as pessoas com pouco acesso à ela ainda esperam que nos dê curas milagrosas, a panacéia (remédio para todos os males da vida), bem como os “fanáticos” (cientistas céticos e que resumem sua vida nesse fazer) que agora não são religiosos, mas “científicos”
Se Nietzsche pudesse ressurgir hoje, poderia comprovar sua idéia da morte de Deus, e ver que a Ciência nos trouxe para um mundo de dependência dela, pois as tecnologias que ela desenvolve acabam por nos tornar como crianças sem a mãe por perto quando não temos acesso a elas, ou quando esse acesso nos é tomado. Pensamos que existe um Deus, talvez um pouco diferente daquele da época de Nietzsche, mas isso não nos liberta dessa dependência, embora possa “afrouxar” em algumas pessoas a crença cega na Ciência.

Liberdade como Ilusão

É interessante como ainda hoje há a ideologia (entendida como conjunto de normas que conduzem nossas idéias, comportamentos, etc) de que somos seres livres. Mas o que é ser livre? Creio que não há resposta a essa pergunta que, por mais simples que possa ser (pois, afinal, você poderia responder que ser livre é não ser preso) não pode jamais ser respondida sem ser definido o que essa palavra significa.


Assim, ser livre seria poder andar, ir e vir como preconiza os direitos humanos universais? Seria escolher os rumos da nossa vida independente do meio ambiente, do social, enfim, das relações com as demais pessoas? Seria questionar o que é “liberdade” e chegar à conclusão de que não somos “livres”?

Perguntas e Respostas (Participando de Pesquisa)

Um dia desses recebi um email da graduanda de Comunicação da Universidade Federal Fluminense Lorena Piñeiro. Ela passou a se interessar por Tanatologia, segundo ela, ao fazer um trabalho para um disciplina, se interessando ao ponto de realizar a sua "pesquisa sobre as diferentes perspectivas da morte na sociedade atual. Pretendo direcionar o foco para os profissionais que lidam com a idéia da morte diariamente, comotanatólogos, agentes funerários, coveiros etc", como escreveu no email.

Ela descubriu numa comunidade do orkut a minha pesquisa, "A Frágil Arte da Existência", e entrou em contato. Isso para provar que há interessados no assunto em muitos lugares e áreas distinta.

Pedi permissão para ela para colocar aqui suas perguntas e minhas respostas.


1 - Devido ao tabu que envolve a questão, muitas vezes, osprofissionais que trabalham com assuntos relacionados à morte tendem aser estigmatizados, como se a "idéia do morrer" fosse incorporada àsua imagem? Quando você decidiu se dedicar a esse estudo?

Trabalhar especificamente em situações onde a morte é muito presente, ou se interessar bastante pelo tema com certeza estigmatiza tanto os estudiosos reconhecidos quanto graduandos, como é o meu caso. Na minha Universidade, para ter uma idéia, meu nome já é associado ao tema, por ser o graduando que mais se interessa pelo tema, tendo uma pesquisa na área já, sendo coordenador de um grupo de estudo sobre o tema.
A morte é um tabu com toda a certeza, embora ela faça parte da vida e a todo momento estejamos “vendo-a”. Muitas pessoas nos olham como se fôssemos mórbidos, ou desejássemos morrer ou ainda como pessoas depressivas, tristes, enfim, tudo o que podemos associar è morte.
Na verdade, meu interesse sempre foi por temas esquecidos, por assim dizer. Então, desde a adolescência me interessei por coisas ditas “negras”, seja em música, seja em entreternimento. Durante o curso de Psicologia, pude perceber que realmente a morte é algo que deve merecer a atenção, tendo sempre em mente que pensar a morte é pensar a vida.

2 - Os estudantes da área de saúde são devidamente preparados paraenfrentar as questões da morte?

Embora a literatura diga que não, posso falar da minha área que é a Psicologia. Com certeza não temos um preparo técnico para tal. Tanto que acredito que apenas o curso da USP tenha a disciplina Psicologia a Morte, mas lá eles têm um grupo bem forte. Acho que para além de um preparo técnico, há um preparo humano, que se dá na família e na sociedade. Assim, se a sociedade não sabe lidar com as questões da morte, é difícil uma pessoa conseguir fazer isso. Esse movimento de pensar a morte vem como resistência à isso. Acredito que deveriam ser estimuladas mais reflexões acerca do tema, pois como ajudar alguém (dentro de cada área específica) se não conseguimos lidar com nossos anseios?

3 - Os cinco estágios comportamentais descritos pela doutoraKubler-Ross que seguiriam a descoberta de uma doença incurável, porexemplo, se manifestam de que maneira nos pacientes? E como osmédicos, psicólogos, tanatólogos trabalham para superar essas etapas?
Primeiro, gostaria de dizer que esses s]ao estágios muito questionáveis hoje em dia, e não tenho experiência pessoal com pessoas em situações de morte iminente. Acredito que para qualquer pessoa se defrontar diante da certeza da morte é algo que no mínimo mobiliza muitas coisas, como tristeza, raiva, desesperança, desilusão, etc., que são característcias dos estágios que Kubler-Ross vem pensar. Não acredito que devamos nos centrar em categorias como essas, pois temos na frente um ser humano, e acho que a leitura de Kubler-Ross serve mais para isso do que para identificarmos esses estágios. Além disso, não creio que a superação dos estágios (se é que existem) seja o objetivo, ou pelo menos deveriam ser, das pessoas que trabalham com a morte em hospitais, por exemplo.

4 - Como a atitude diante da morte mudou através dos tempos? Por que amorte vem desaparecendo do discurso nos meios familiares decomunicação?Há um historiador, Philipe Áries, que fez um estudo exaustivo sobre a morte ao longo dos tempos. Para não me estender aqui, pode-se dizer que a morte passou de algo que era vivido como natural e em família (com o moribundo morrendo em casa, em meio aos filhos, amigos e vizinhos), um evento aceito e vivido sem vergonha (às vezes até com glória), para uma época onde a morte é invertida (como diz esse autor), onde ela é escondida dos olhos das pessoas (salas esterilizadas, isoladas das demais, onde só o médico entra), onde é vista como vergonhosa pela equipe de saúde, pois significa fracasso do trabalho, as pessoas são isoladas, tornam-se números e patologias, perdendo sua identidade. A morte não é mais encarada com dignidade, mas temor.

5 - Por último, qual é a influência da mídia sobre a percepção damorte que temos hoje?A mídia tem grande responsabilidade por essa forma de ver a morte, pois ela banaliza a morte, a mostra como algo ruim (assassinatos, suicídios), e não como alívio de anos de sofrimento ou como um processo natural. Além disso, ela trabalha com interesses capitalistas, então supersensacionaliza coisas como o assassinato de uma criança específica, sendo que isso ocorre em todos os lugares, “demonizando” a morte e colocando-a como algo que pode ser e deve ser evitada.

Pensando a(na) Mortalidade Humana


O que nos cabe ao pensar sobre a vida? Pensar sobre a morte é pensar sobre ela. Não é um movimento mórbido, ou macabro. Pelo contrário, é um movimentar-se sobre a existência, pensarmos a nós mesmos a partir dessa inevitabilidade que é a finitud ehumana.


Ernest Becker já percebeu como a nossa sociedade contemporânea se organizou para fugir da morte, negar a consciência de que não somos eternos, ou que somos "Deuses", como ele traz em suas belas palavras. Veio mostrar que tomamos um rumo onde não nos vemos mais como seres animais possíveis de morrer à qualquer instante, o que tentei passar com a pesquisa "A Frágil Arte da Existência", pois a vida é frágil, a qualquer momento qualquer coisa pode acontecer, e não podemos prever ou evitar isso. Por mais que rodeamos a morte, chega um ponto onde ficamos tontos e confusos...
Acima o quadro "Tudo é Vaidade" por C. Allan Gilbert. Essa obra reflete o quão frágil somos perante algo que tentamos dominar, esconder, negar, que é a mortalidade humana...